Faziam só quatro dias que estava em Barcelona, ainda estava na fase do puro encanto com a Europa, achando tudo muito lindo e organizado. Pensando como as pessoas sabiam que para caminhar nos corredores do metrô, é mais fácil se todos que estão indo forem pela direita e os que vindo pela esquerda. A educação, o charme, os grandes monumentos, a Sagrada Familia, tudo muito perfeito. E naquele dia por sorte do destino tinha um jogo da Champions League, logo no meu quarto dia ali, já poderia ter o prazer de ouvir a musiquinha do torneio na abertura da partida e de ver um jogo do maior torneio de clubes do mundo.
Fomos eu e um conhecido de viagem para frente do estádio na hora da partida, pois mesmo sendo já a fase final do torneio, o Barça não estava atraindo tanta atenção e vamos falar a verdade, o estádio é enorme, tem que sobrar ingresso para vender na hora. Chegando ao Camp Nou, a bilheteria da entrada principal só estava vendendo ingressos para a partida de Handball que ia ocorrer ao mesmo tempo (diga-se de passagem, o ginásio estava completamente lotado e partida deve ter sido mais emocionante que o simples 1×0 que veriamos em uma hora), então nos encaminharam a uma outra bilheteria. Chegando lá procuramos o ingresso mais barato, que era no lugar mais alto do estádio, longe, bem longe do campo, mas dizem que é ótimo para se ver uma partida táticamente (acho que eu digo isso para me convencer que não deveria ser pão duro). Só que não tinham duas cadeiras juntas naquele setor, então ficamos parados na frente da bilheteria decidindo o que fazer por alguns minutos, tempo mais do que necesserário para sermos abordados por um homem de uns 30, 40 anos.
Ao nos apresentarmos como brasileiros, o homem já se mostrou mais aberto e nos chamou para ir um pouco mais afastados da bilheteria que ia nos oferecer uma maneira de sentarmos perto um do outro no estádio. Na hora a gente pensou que era um simples cambista e a curiosidade de saber o que ele poderia oferecer para gente nos levou a acompanhar este homem, sendo que tinhamos ingressos disponíveis na bilheteria não teria nada de especial para ele nos oferecer. Então ele nos ofereceu um esquema de entrar no jogo com carteirinhas de sócio do Barcelona, que é devidamente identificada com a foto, mas segundo ele era só colocar o dedão na frente da foto que as pessoas da entrada não iam reparar. Na hora meu amigo ficou receoso e resolveu comprar o dele na bilheteria, mas eu não podia deixar de conhecer como funcionava aquilo tudo, ele me ofereceu a carteirinha de sócio e a outra de ingresso para todos os jogos da temporada pelo preço da bilheteria e a única coisa que eu tinha de fazer era deixar um documento com ele para garantir a devolução da carteirinha. Fui ao jogo, devolvi para ele a carteirinha e ficamos com o numero dele para o próximo jogo da Champions, que ia ser o Manchester Untd e já havia fila de espera no site do Barcelona para conseguir ingresso.
Então chegou a semana do grande jogo e descobrimos que aquele dia do Chelsea, ele não faturou muito, porque o ingresso para o sócio tem um desconto pequeno, mas um ingresso no dia do jogo contra o Manchester, quando o mais barato saíria por uns 95 euros, ele vendia facilmente o empréstimo da carteirinha por 300, 350 euros para qualquer pessoa na frente do Camp Nou. Esse homem, tinha cerca de seis carteirinhas diferentes, e quando ligamos na terça para saber com ele como seria a coisa para a partida na de quarta, todas as carteirinhas já estavam reservadas.
O negócio negro dos cambistas é algo que sempre me incomodou como torcedor no Brasil e para mim, idéias como a do Internacional de fazer sócios era uma ótima maneira de coibir os cambistas ou ajudar o torcedor que vai sempre no estádio, pelo visto sempre há alguém para fazer as coisas não funcionarem. Mas como sempre dizemos, a Europa está um passo na frente da gente, para o bem ou para o mal.